Entrevista exclusiva com o coautor de Mercury And Me: Tim Wapshott

Introdução aos fãs Russos, público para o qual essa entrevista foi concedida originalmente e que está sendo gentilmente cedida aos fãs brasileiros.

A maioria dos fãs Russos do Queen tem uma visão muito distorcida sobre Jim Hutton, seu livro e seu relacionamento com Freddie Mercury. Há várias causas disso: atitudes geralmente negativas em relação aos relacionamentos homossexuais na sociedade russa, a falta de conhecimento da língua inglesa e uma representação distorcida do livro do Jim em materiais de língua russa. Esses materiais são ou focados nos detalhes mais sensacionalistas, mal traduzidos ou diretamente acusando Jim Hutton de mentir.

Numa esperança de esclarecer alguns equívocos, contatamos o coautor de Jim, Tim Wapshott. Ele gentilmente concordou em responder as perguntas para a nossa comunidade Queen no VK.com.

 

Como começou seu trabalho com Jim Hutton?

Um amigo em comum se aproximou de mim e me apresentou ao Jim logo após a morte de Freddie Mercury. Era óbvio que Jim teve uma longa jornada com Freddie e estava lutando para aceitar sua perda.

 

Então foi ideia do Jim escrever um livro, e você foi convidado a ajudá-lo?

Jim queria fazer o livro. Acho que ele sentiu que escrever Mercury and Me seria extremamente catártico, uma maneira de exorcizar sua imensa dor.

 

Como foi o processo de escrita?

Nós nos demos muito bem e, uma vez que Jim me conheceu um pouco melhor, ele realmente se abriu livremente. Não havia nada que ele não estivesse preparado para falar direta e honestamente. Não havia nada desonesto ou arrogante nele. É difícil trabalhar em um livro por muitos meses com alguém de quem você não gosta ou respeita – mas felizmente eu gostava e respeitava muito o Jim. Ele foi direto e realista enquanto se aprofundava na extraordinária vida e parceria que ele teve com uma pessoa tão extraordinária.

 

O livro é obviamente estruturado como uma série de entrevistas. Você fez muitas perguntas ao Jim ou ouviu mais as histórias dele?

Trabalhar com alguém em um livro de memórias tende a ser uma mistura de ambas as coisas.

 

As entrevistas foram conduzidas cronologicamente, do começo ao fim da história, ou mais ou menos em ordem aleatória?

Eu acho que foram bastante cronológicas, sim, ao organizar a história.

 

O quanto Jim se envolveu no processo de edição?

De forma nenhuma. Jim não era escritor.

 

Havia coisas que eram particularmente difíceis para o Jim falar?

Claro. É difícil perder aqueles com quem você se importa na melhor das hipóteses, mas fazer isso com a mídia do  mundo todo acampada do lado de fora de sua casa porque seu parceiro, por acaso, era uma das pessoas mais famosas do planeta, traz um fardo adicional. Jim estava chateado que a imprensa do mundo ficava, da forma como ele percebeu, como abutres em torno de sua casa em Garden Lodge, enquanto a batalha de Freddie contra a AIDS estava chegando ao fim. Reviver o momento em que Freddie morreu em seus braços foi obviamente extremamente traumático, assim como foi me contar algumas das coisas que aconteceram com ele depois que ele perdeu o amor de sua vida.

 

Quanto do material escrito não entrou na edição final do  livro e por quê?

Muito pouco! Acho que incluímos todas as lembranças importantes no livro de memórias do Jim.

 

Jim falou no livro e mais tarde reiterou em uma entrevista que ele achava que Freddie foi “coagido” a fazer uma declaração sobre seu diagnóstico de AIDS. Ele lhe contou por que achava isso com mais detalhes?

Não, foi apenas o pressentimento dele.

 

Qual foi a reação geral ao livro após a publicação?

Muito boa. Foi amplamente bem recebido, especialmente por fãs do Queen em todo o mundo, o que foi muito importante para Jim. Depois da morte de Freddie, ele gostava de ir à convenção de fãs e encontrar pessoas que amavam Freddie tanto quanto ele. O livro também encontrou o seu lugar na história LGBT, por traçar uma história pessoal de devastação pela AIDS contra um pano de fundo de reações homofóbicas na época, no Reino Unido – estes eram tempos sombrios e obscuros, cheios de preconceito e ignorância. A chegada do filme Bohemian Rhapsody tem feito até o livro voltar às listas dos mais vendidos, especialmente nos Estados Unidos, já que os fãs estão procurando mais por Jim Hutton, ansiosos para ouvir diretamente do homem que o cantor chamou de “meu marido”. Tenho certeza de que Jim ficaria muito lisonjeado.

 

O preconceito homofóbico no Reino Unido afetou a percepção  das pessoas sobre Freddie Mercury enquanto ele ainda estava vivo, e de que maneira? Sua sexualidade era “óbvia” ou, ao contrário, a maioria das pessoas nem fazia ideia?

Eu acho que Freddie era apenas Freddie – qualquer um que pensasse sobre essas coisas e fosse remotamente inteligente provavelmente perceberia que Freddie era gay. Então, de novo, ele não exatamente escondia sua sexualidade – ele simplesmente não queria responder sobre sua sexualidade aos repórteres de tabloide britânicos, sórdidos e obscenos, e quem pode culpá-lo?! Felizmente, hoje no Reino Unido a homofobia e o preconceito baseados na sexualidade são vistos simplesmente pelo que são: crimes de ódio.

 

Você certamente se lembra dos primeiros rumores sobre Freddie ter AIDS nos jornais. O quanto eles foram levado a sério pela mídia e pelo público em geral?

Eu não acho que o público em geral realmente soubesse ou se importasse de uma maneira ou de outra – e os jornais estavam interessados ​​apenas porque era uma história.

 

Você e Jim esperavam / temiam possíveis reações negativas ao livro, e houve alguma?

Nem por um momento. Era uma história de amor delicada.

 

Ouvimos alguns rumores bizarros sobre representantes do Queen e / ou membros da família de Freddie tentando tomar medidas legais contra Jim e seu livro. Existe alguma verdade nisso?

Posso confirmar que nenhuma ação legal foi tomada contra Jim Hutton e / ou seu best-seller Mercury and Me – nem qualquer ação legal de qualquer tipo foi sequer sugerida, pela simples razão de que Jim estava lá e sua história envolvente e emocionante é verdadeira.

Eu sempre entendi que os membros restantes do Queen conheciam e gostavam de Jim e sentiram sua dor quando ele perdeu Freddie. Na verdade, quando publicamos a edição Kindle do livro alguns anos atrás, Brian May até o promoveu em seu próprio website.

Nunca houve nenhum problema com o livro, nem com os familiares de Freddie ou do Jim.

 

Falando de Bohemian Rhapsody: você acha que Aaron McCusker fez um bom trabalho ao interpretar Jim Hutton no filme? Os roteiristas ou o próprio ator consultaram você?

Funcionou perfeitamente, eu acho, mas não pensei muito nisso.

 

No filme, Freddie faz amizade com Jim já sabendo que tem AIDS. Foi uma boa decisão dos roteiristas?

Não corresponde à realidade, então não posso dizer se foi uma boa decisão. A doença de Freddie não foi diagnosticada e muito menos confirmada quando ele tocou no Live Aid.

 

Você conheceu Freddie Mercury, seus colegas de banda, amigos ou familiares pessoalmente?

Eu conheci Freddie, em uma festa que ele deu no Garden Lodge. Como seria de se esperar, a hospitalidade foi inigualável! E eu ainda vejo Brian May e / ou sua esposa Anita socialmente de vez em quando. Escrevendo o livro, conheci a grande amiga de Jim, Martha, e a vi pela última vez há alguns anos, quando ela me ajudou a lançar a edição atualizada para Kindle do Mercury and Me – assim como a adorável Jackie Gunn, do Fã Clube do Queen no Reino Unido.

 

 

Você pode nos contar um pouco mais sobre a festa no Garden Lodge? Como era o Freddie?

Freddie era bastante tímido e deixava a festa para as pessoas. Eu acho que eu estava lá para uma festa de aniversário improvisada para Peter Straker – então havia muitos convidados que Freddie não conhecia e em tais situações ele tendia a sumir discretamente!

 

Que tipo de pessoa era o Jim? Foi fácil trabalhar com ele?

Jim era educado e gentil. Ele era geralmente um sujeito quieto, reservado e bastante introvertido, mas ele também podia relaxar – e então amava nada mais do que rir e fazer os outros rirem. Por todos os seus problemas, ele era uma alma feliz que estava contente com o seu destino. Jim também adorava “cultivar” coisas – fossem plantas no jardim que floresciam sob seus cuidados, ou cães e gatos variados que sempre faziam fila para ele.

 

Você pode compartilhar alguma história engraçada sobre o Jim, seja durante a escrita do livro ou depois?

Todas as entrevistas para o livro foram gravadas na casa de Jim em Ravenscourt Park. Seus gatos assistiram a maioria delas! Eles entravam e se sentavam ao lado de Jim todas as vezes – assim que ficassem confortáveis poderíamos começar.

 

Você continuou em contato depois que o livro foi publicado?

Sim. Jim permaneceu em Londres por alguns anos após a morte de Freddie, mas no final dos anos noventa ele havia voltado silenciosamente para a Irlanda, onde morava na casa que construíra ao lado da casa de sua mãe. Ele não voltou muito a Londres depois disso, mas nós conversávamos ao telefone de vez em quando. Eu senti que ele definitivamente encontrara uma forma de contentamento ali que ele não conseguiu encontrar todo o tempo que permaneceu em Londres sem a presença de seu querido Freddie.

 

Quando você viu ou falou com Jim pela última vez?

Não tenho certeza. Talvez 18 meses antes dele morrer.

 

Obrigado por suas respostas! Agradecemos a sua colaboração Sr. Wapshott!

 

Fonte: Alexey Zakharov para a comunidade de fãs Russos:  https://vk.com/queenrocks

Colaboraram: Eugene Che / Rafael Casado

Tradução: Luciana Machado